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A Integridade e a Democracia no Ensino Superior: A IA Como Seu Instrumento

Lição proferida na Abertura Solene do Ano Letivo 2025/2026

I

Juntando o facto de não ser eu um especialista nesta área e muito menos com um domínio acertado das novas tecnologias, pode parecer estranho o título que dei a esta comunicação. Vou tentar ensaiar durante estes minutos para que, no fim, não me considerem intempestivo ou anacrónico e, muito menos, descabida esta minha intervenção.

Qualquer tecnologia, lembro aqui a invenção da escrita e das armas de fogo, se for universal para que resulte numa revolução, traz sempre pontos de vista humanos distintos, incluindo muitas vezes na marginália, um ponto de vista natural que suplanta o possível esclarecimento humano do tema.

Ora também neste início de uso generalizado de IA, sobretudo através de pesquisas, criação de resumos ou mesmo organização de trabalhos académicos e bibliografias, traz consigo mais vantagens do que entretenimento e, sobretudo, liberta-nos algum tempo, disponível depois, não para a recriação tecnológica do mesmo tema, mas para o que ansiámos fazer quando chegamos a um lugar ou a uma idade (espaço e tempo).

Claro que estes procedimentos e seus resultados não são suficientes para que, tal como aconteceu em toda a distribuição universal de uma nova técnica ou tecnologia, o antagonismo sofresse algum revés, arrastando-nos para a comunicação, publicação e armazenamento, em arquivo, de milhares de artigos, livros ou noticias sobre o assunto. Nos interstícios deste arquivo pululam medos, animosidades, libertação para a ocupação de tempos livres e, noutro lado, a pura catástrofe. E como sabem, esta palavra vem do grego (Katastrophé) que era um momento do teatro e tragédia gregas em que havia uma alteração da dramaturgia que conduzia a um fim inesperado e, depois, ao final da história.

Olhando de soslaio para o mundo, a natureza e os outros, parecendo tudo em crise, a palavra catástrofe assumiu um papel fundador do perigo, abismo ou irracionalidade de algumas épocas do moderno e do contemporâneo (embora nunca deixámos de ser modernos por essa queda sistemática na crise ou na catástrofe).

II

Feito o primeiro desvio securitário, que todos fazemos em muitas alturas da nossa vida, interessa regressarmos ao percurso original, onde a IA é uma ferramenta para uso académico e, sobretudo em alguns casos, para uma negação da História, que o mesmo é dizer do Real e da iluminação com que a Natureza se tece. Tendo já feito uma torção, em todas as revoluções técnicas, do tempo e do espaço, essas intuições a priori da Crítica da Razão Pura, de Kant, das quais o humano não se consegue libertar, mas apenas iludir ou suplantar, chegou o momento de nos confrontarmos com um todo e não uma parcialidade da natureza ou do humano.

Chegou o momento, pela IA, de nos confrontarmos com uma nova experiência que já não depende apenas do nosso lugar e tempo mas de uma potente maquinaria que, desconhecendo eu verbo melhor para uma ação, digo que nos fornece dados para o pensamento coletivo ou individual; e nos ajuda na criação da nossa outra experiência de viventes, como fizeram todas as outras tecnologias, como o estetoscópio do Dr. Laennec, que obrigou o médico a afastar-se do corpo do paciente e a abrigar-se num lugar recriado por si e no seu momento de escuta. E o mesmo abandono do corpo se passou com a escrita.

Mas podemos sempre dizer que não? Sim. Ao contrário do que dizem alguns, sempre houve grandes revoluções a que muitos não quiseram voluntariamente aderir, ou outros que ficaram fora da história. É uma escolha no primeiro caso, e uma imposição de estado no segundo. E todos reconhecemos, com Kant, que o inicio, o pontapé de saída do conhecimento, se faz através da experiência.

Estamos neste momento da Historia no começo de uma experiência que, já todos ouvimos, vimos e lemos, pode levar a um melhor conhecimento de nós e da própria experiência. Se não participarmos desse contacto com a IA, estamos voluntariamente, a afastar-nos de uma prática adutora (que podemos julgar não nos afetar) que nos afasta de afinidades que seriam eletivas e determinantes para um novo olhar sobre o Outro. Acredito que quem nunca quis um computador, um telemóvel (etc.) ou nos primórdios quem achou supérfluo o uso de uma linguagem escrita em vez da oralidade, se colocou fora da conformação a novas afinidades. As torções no espaço e no tempo mesmo que ilusórias fabricam desejos que podem ser saciantes.
Então, neste principio em que muitos escrevem e falam de uma experiência que se metamorfoseia todos os meses, de um contacto com a velocidade e a imensidão do arquivo humano, se por um lado parece que esta tecnologia é mais veloz que nós (como uma seta ou um mail), por outro coloca em cima da mesa (de trabalho) e de um modo direto, a imensidão dos conflitos, que sempre tivemos, agora lado a lado no arquivo de muitas máquinas interligadas. É claro que um desejo antigo, de um corpo androide, sem órgãos, que lemos desde sobretudo o Séc.XVIII, um Adão e Eva futuros, pode nalgumas mentes constituir-se como uma potência tangível, o mesmo se passa na fabricação artificial do erro e da mentira (como sempre sucedeu na História, mas sempre obliquamente, e entre poucos indivíduos).

Só que o uso da mentira (como um facto alternativo) aprofundou-se de tal maneira que é mais fácil apanhar rapidamente um coxo que o mentiroso (peço aqui desculpa aos coxos por glosar este provérbio antigo). Como em muitas épocas da história, já não interessa muito os eixos éticos e morais com que se constitui um individuo e, com ele, uma comunidade, para esclarecer a ideia do bem. Só que, em muitas dessas épocas, a divulgação do erro era residual, lenta e logo confrontado ou eliminado.

Hoje, o mesmo se passa, mas agravado pela potência veloz e certeira dos novos meios e media sociais: veloz pela tecnologia e certeira porque nos apanha através da visão (esse sentido desde sempre predador) e no conforto dos tempos livres, como se houvesse em nós uma disposição assumida para as imagens, que sem perigo, pensamos, torna desnecessário o alerta do “nervo crítico”, com que se estabilizam ou aprofundam todos os saberes e democracias. E, numa menor, mas digna escala, também por aí se estabiliza e aprofunda o afeto pelo Outro.

III

Da dimensão natural e humana às sociedades planetárias, a constituição de experiências, mesmo que virtuais, cria um novo Renascimento, não para restaurar os valores romanos e gregos, embora muitos ainda se encontrem na nossa ética e lei, mas para um corte decisivo com o subterfúgio e a ilusão protagonizados por quem acha que, no fim de contas, na balança da História o bem se assemelha ao mal, e a mentira à verdade.

E, sigo aqui Nietzsche, se a verdade e a mentira são construções formais da linguagem e do humano, e se a mentira foi punida, mas parece atualmente sofrer muito desgaste essa punição, é porque falhamos, ou esquecemos, diariamente a convenção. A verdade não pode ser uma forma de dominação de um poder, mas sempre um acerto do Sentido que deve prevalecer no futuro.

E é esta a responsabilidade da educação superior, que o que deve prevalecer é mais forte que o domínio do tíbio ou da mentira. É a tibieza que nos torna fracos ou «mornos» (que deus está pronto a vomitar da sua boca, conforme o livro do Apocalipse, 3:16) e canais abertos a tudo. Porém, a mentira não acrescenta sentido ao futuro, antes o diminui a favor de uma ideologia, uma ideia, um poder, quase sempre individual e, felizmente, raramente coletivo.

Quando um jornal pediu a Kant uma definição de Iluminismo, ele posicionou o comportamento desse tempo numa «atitude crítica» do humano, e, no geral, seria a saída de um estado de «menoridade» onde o humano se mantinha voluntaria ou involuntariamente, por «incapacidade de se servir do seu próprio entendimento» (sigo Foucault, O que é a Crítica, Lisboa: Edições Texto & Grafia, pg.36.).

Parece que também agora, como nesses tempos do século XVIII (sobretudo) estamos perante a necessidade de sair de um tempo para outro, e a passagem faz-se agora por uma tecnologia que ainda não dominamos, da qual alguns dos seus criadores têm medo por também não saberem o seu alcance e efeitos no comportamento. Porém, como a razão e a ciência nesses tempos longínquos do Iluminismo, continua a haver alternativas: ou se adere ou não. Sabendo que a não adesão é o afastamento individual para um território fechado.

Tal como lá longe, a atitude crítica não pode ser apenas um programa intelectual, didático ou psíquico, ele deve ser um roteiro de afirmação ou negação de elementos de uma tecnologia que abre em nós um domínio grande à curiosidade, aliás, como em maior ou menor escala, todas as revoluções tecnológicas. «Sapere aude» que era a divisa desse tempo tomada de empréstimo a Horácio, significa exatamente «ousa saber» ou ganha coragem e «pensa por ti mesmo». Por este lema, não podemos afastar a universidade e os seus agentes (professores, investigadores, colaboradores e estudantes) da coragem do enfrentamento de uma nova tecnologia que, como todas, pode servir para a emancipação, mas também para o controlo, a permeabilidade acrítica e a desconfiança.

A periódica má relação entre o conhecimento e a técnica é, como nos diz Foucault, central para a emersão da crise em muitas sociedades. Nunca podemos esquecer (e aqui significa que temos de saber) que qualquer tecnologia traz consigo formas de coerção e conhecimento (Foucault); e, portanto, não podemos neutralizar esses potenciais efeitos (só fugindo da realidade), mas como sujeitos podemos condicioná-los a nosso favor e não beneficiar apenas uma macroestrutura, económica, social ou politica. Tal como a dúvida sobre uma determinada causa ou efeito, sobretudo quando ainda não intercetada totalmente nas práticas diárias, também o medo é outro condicionador de uma exposição a uma participação aberta ao que a IA pode fazer, positivamente, pelo nosso tempo, desinquietando-nos para curiosidade e a atitude crítica ou o pensamento crítico se quiserem.

Os chatbots da IA reconhecem e expressam o que podem fazer por aquilo que muitas vezes chamamos cultura e, outras vezes, civilização, embora os conceitos tenham sofrido nos últimos dois séculos alterações, mas os seus fundamentos permanecem no «ADN» humano (se assim se pode dizer). A curiosidade por esta enciclopédia digital, transversal e generativa é o principio que anula o neutro e aciona diferentes formas de a manipular e usar. Destaco o aumento da participação cívica já que, com uma atitude crítica, temos mais acesso a informação política e também à sua síntese. Como já fazem alguns media, é agora mais fácil saber, em poucos minutos, o que distingue diferentes programas individuais ou partidários e mesmo tornar compreensível o jargão de algumas propostas legislativas.

Munidos dessa crítica que passou agora para um novo patamar, de confronto mesmo com o real e a sua representação (já que pode a visão ser iludida), podemos investir em desmitificar e combater o erro e a desinformação (tão útil a alguns grupos sociais e políticos). Contra a neutralidade que aqui se pode traduzir por um reencaminhamento sem análise de conteúdos digitais, somos agora mais capazes de decidir o que é falso e o que pode engrandecer a comunidade, através da Humaniora (o pensamento crítico, através de diferentes perspetivas, dos valores, das crenças e do comportamento humano) que agora está ao nosso alcance.

Por último, a inclusão social é cada vez mais abrangente, diluindo escalões etários e classes sociais, já que alguns segmentos da diversidade e inclusão se encontram junto ao nosso corpo, nos dispositivos que temos de informação e comunicação.

Conclusão

E daquele tempo de que falava há pouco, também dos enciclopedistas e da democratização do saber, passamos pela wikipédia, ainda escrita e editada por humanos, e chegamos à Grokipedia, uma enciclopédia da equipa de Elon Musk, feita e editada por IA. É por estes objetos que não podemos ser neutros, mas constituir um «endosqueleto» crítico que nos permita saber usar os dispositivos (um exosqueleto) e entender o que é ainda uma comunidade humana de afetos, de carne e corpos.

OBRIGADO

Luís Cláudio Ribeiro
Vice-Reitor