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Eventos

Sessão Solene de Abertura do Ano letivo 2025/2026

É com confiança e alegria que hoje nos reunimos para celebrar a abertura solene do ano letivo de 2025-2026 da Universidade Lusófona, a nossa casa comum.

A abertura é um gesto inaugural de todo o pensamento e de toda a obra. Toda a abertura funda-se no espaço do aberto, que não se deixa encerrar sobre si próprio. Como afirma Maria Gabriela Llansol, o humano joga-se no “espaço aberto e abrangente que compreende a errância e a compreensão universal”. E este, refere a poetisa, é sempre ameaçado “pela máquina infernal de inclusões e de exclusões, de enraizamentos e de exílios”.

A abertura é o instante em que o espírito se dispõe ao desconhecido e reconhece, no limiar do tempo, a sua própria vulnerabilidade criadora. Rilke escreveu: “O aberto é o infinito sem resistência, o lugar onde o ser é.” Esta disponibilidade interior, que é também coragem, define o sentido da abertura académica: não como simples começo de um ciclo, mas como exercício de escuta e de transformação. Abrir o ano letivo é, assim, abrir o espaço do possível — onde o saber se renova, o diálogo se institui e a Universidade se faz lugar de passagem entre o que somos e o que ainda podemos vir a ser.

Pela nossa parte, integramo-nos com plena consciência e vontade na missão do nosso projecto educativo, cuja fundação se deve ao Professor Manuel de Almeida Damásio. Fundar algo de essencial corresponde a uma decisão originária. Com ela abre-se o milagre do início, de que tão bem falou Hannah Arendt. Toda a decisão, se forte e necessária, exige materializar-se, impor uma forma à vida e à matéria. Uma fundação teve lugar e, no espaço aberto por ela, continuamos a trabalhar, a levá-la em frente, repetindo-a de maneira nova, ano a ano, gesto a gesto, acto a acto.

A ideia inicial, imperceptível, mais sonhada do que programada, não se apresenta por si: apresenta-se na decisão, na sua materialização. Só o sabe quem a recebeu e a leva em frente. E cada nova abertura é o continuar dessa decisão inicial. Todo o fluir, o devir e as mudanças do mundo atraem, desgastam, avassalam; a própria coisa fundada está em movimento e tem de assumir, a cada momento, a resposta ao passar do tempo, à História — as crises, as guerras, as leis, a economia. A sua resistência é um milagre do trabalho de todos e de cada um.

Com efeito, a Universidade Lusófona é uma instituição aberta e dinâmica. A instituição é a base da vida em comum e, qualquer que ela seja, é o efeito de um poder instituinte, onde se origina e se insere no mundo, e de um poder constituinte, que a refunda em permanência. Por isso, toda a instituição que se queira viva caracteriza-se por uma certa abertura, pois as fronteiras que a separam do exterior são instáveis. Desenvolver uma instituição implica atenção às fronteiras, dentro das quais se organiza internamente e a partir das quais se expande exteriormente. Essa abertura comporta a possibilidade de crise e de problemas; quanto mais graves, mais exigente é o saber dessas fronteiras. E o momento actual está longe de ser tranquilo.
A refundação da Universidade Lusófona em 1 de Dezembro de 2022, resultante da integração da ULHT e da ULP numa única instituição, reforçou a presença do nosso projecto formativo no espaço universitário português e europeu, bem como no espaço lusófono, em que nos integramos por missão, há muito estabelecida e livremente assumida. Ao recebermos e levarmos adiante o legado de 30 anos de trabalho, tornámo-nos a maior universidade privada em Portugal, ultrapassando os 15 000 alunos, dos quais, ao dia de hoje, mais de 1 400 vêm do estrangeiro.

O processo de fusão das duas universidades, com as dificuldades previsíveis, decorreu de forma plástica e com entusiasmo, visando uma vida académica viva, inovadora e resiliente. Atingiram-se os objectivos essenciais de integração dos regulamentos, dinamização dos órgãos académicos, incremento da investigação, internacionalização e mobilidade de estudantes, professores e funcionários, digitalização dos serviços centrais e crescente qualificação do trabalho comum. É com satisfação que, em 21 de Outubro deste ano, fomos informados pela A3ES da acreditação Institucional, após avaliação externa, por 6 anos. Uma palavra de reconhecimento para todos os dirigentes, colegas e, na pessoa da Dra Célia Pires, ao serviço de gestão da qualidade desta universidade.

Os resultados alcançados resultaram das vontades conjugadas de muitos, da Reitoria à Administração e aos directores de serviços que estruturam organicamente a Universidade. Quero enaltecer o papel da equipa reitoral na dinamização dos aspectos relevantes da nossa vida académica: o Vice-Reitor Professor Luís Cláudio Ribeiro, a Professora Dr.ª Isabel Babo, o Vice-Reitor Professor Carlos Poiares, a Pró-Reitora Professora Diana Dias e a Pró-Reitora Professora Dr.ª Elisabete Pinto da Costa. Cada um, e todos em conjunto, empenharam-se nos resultados alcançados.

Dada a nossa especificidade, sabemos que enfrentar estas tarefas essenciais só é possível em estreita articulação com a Administração, à qual, no nosso modelo de governança, cabe um papel dinamizador ao nível dos financiamentos e do desenvolvimento dos nossos dois campi. Foi com alegria que assitimos no CUP à entrada em funcionamentodo pólo 3 e ao início da construção do edifício desenhado pelo arquitecto Souto Moura pessoas, e no vaso do CUL aàs obras de remodelação do nooso campus de Lisboa. Assim, na pessoa do Professor Manuel de Almeida Damásio, Presidente da Administração da COFAC, e do Professor Manuel José Damásio, Administrador Executivo da nossa Universidade, agradeço a todos os administradores e, em nome deste último, a todos os directores de serviços. Regozijamo-nos com a maneira entrosada e harmoniosa como se tem desenvolvido o trabalho comum. Quero ainda referir o importante papel desempenhado pelo Provedor do Estudante, Professor Dr. Diogo Mateus, no acompanhamento dos nossos estudantes, sempre necessitados de apoio e orientação.

Por decisão consignada no Decreto e nos Estatutos que nos fundam, e que nos levam a trazer a palavra Lusófona no nome, conferimos especial importância à intervenção solidária e activa no espaço da lusofonia, mormente nos países da CPLP, quer através de iniciativas colaborativas a nível nacional, quer pelo contributo para implementar uma rede de ensino lusófono relacional e livre. Consideramos essencial a cooperação com as universidades e instituições de ensino superior ligadas ao ensino lusófono, onde nos inserimos centralmente, nomeadamente as existentes em Cabo Verde, na Guiné, em Angola, em Moçambique e em São Paulo, Niterói e Baía, no Brasil. Sendo autónomas, como é imperativo, todas estas instituições têm a ganhar com a nossa cooperação mútua.

A nossa Universidade dá especial atenção ao tetraedro constitutivo do espaço do ensino superior europeu, visando afirmar a natureza singular do nosso projecto: formação; investigação e inovação; internacionalização; e digitalização.
Do ponto de vista da investigação, estamos hoje melhor preparados e consolidados. Não existe investigação sem investigadores, e estes precisam de um espaço que os apoie, suporte e fortaleça. Isso passa pelos nossos 12 centros de investigação e pelos 13 doutoramentos. O facto de, na última avaliação da FCT, termos obtido excelentes resultados, com muitos centros qualificados como “Excelente” ou “Muito Bom”, é sinal de que temos as bases necessárias para intensificar e fortalecer a investigação e promover a inovação, tão necessárias num mundo em mutação como aquele em que vivemos.

Registe-se o aumento da mobilidade de entrada e de saída de estudantes, professores e funcionários, acrescentando saber e partilhando os valores comuns europeus. Vale a pena destacar, pela sua importância, que na internacionalização temos vindo a assumir um papel activo no espaço europeu do ensino superior, esforço que se materializa na implantação e desenvolvimento da nossa universidade europeia, a FilmEU, especializada em cinema, artes dos média e indústrias culturais, aberta a novas abrangências. Sob a liderança da nossa Universidade, esta aliança é constituída por oito universidades de oito países (Portugal, Bélgica, Irlanda, Dinamarca, Lituânia, Eslováquia, Bulgária e Estónia), com mais de 50 000 estudantes no seu conjunto, permitindo-nos aceder a programas como o Horizon, a European Bauhaus e o Erasmus+, onde temos obtido claro sucesso. Trata-se de um projecto encabeçado pelo nosso colega Professor Manuel José Damásio, que lhe tem dedicado o melhor do seu esforço e inteligência. Registe-se que, entre 10 e 11 de Novembro, terá lugar em Lisboa o Summit do FilmEU: “STEAM: strategies for the future”, particularmente importante para o futuro deste projecto europeu, que se encontra num momento decisivo.

Numa instituição verdadeiramente nossa, cabe-nos cuidar da qualidade da sua estrutura e organização, o que em boa medida depende de nós e das nossas capacidades. Temos de reconhecer e agradecer o trabalho de todos os professores, estudantes, funcionários e parceiros. O trabalho continua. Evoluímos num ambiente turbulento e complexo, do político ao económico, a nível nacional e internacional, marcado por várias crises a que temos de responder, tanto mais rigorosamente quanto não dependem de nós. Foi anteriormente o caso da pandemia, da qual saímos reforçados pela qualidade da nossa resposta; mas também as guerras na Europa e no Médio Oriente, que ameaçam a convivência internacional; acrescem as rápidas transformações tecnológicas ao nível da IA; e a crise das democracias, ameaçadas por autoritarismos insidiosos e preocupantes. Se juntarmos a este quadro a crise climática e a pobreza mundial, deparamo-nos com um panorama que parece conduzir-nos a um limiar da nossa história, a que diz respeito aos humanos que habitam a Terra, a nossa mãe comum.

Não se veja nisso razão para esmorecer, apesar da quantidade de negatividade que entra todos os dias no mundo. Estamos confiantes de que a qualidade do nosso trabalho e dos nossos aliados e próximos, de cada um de nós, acrescenta ao mundo uma quantidade de alegria, de liberdade e de justiça. Estes dois aspectos constituem uma espécie de vasos comunicantes, que queremos desequilibrar em favor das melhores possibilidades para os humanos.

Dirigindo-me a todos, quero endereçar uma palavra particular aos nossos estudantes. A Universidade Lusófona reafirma o seu compromisso com a vossa formação e preparação. Sendo essencial a formação de especialistas e profissionais, de cientistas e investigadores, tal desiderato é inseparável de pensar a Universidade a partir da exigência de uma cidadania esclarecida e de uma cultura democrática viva. Sublinhe-se, neste momento de abertura solene, a centralidade da educação como prática crítica e emancipatória.

Educar para a cidadania e para a ética democrática implica reconhecer o conflito e enfrentá-lo com pensamento, diálogo e responsabilidade. Neste contexto, agradeço efusivamente a conferência do nosso colega Professor Moisés Lemos Martins, sobre “O Espaço Lusófono e a Decolonização do Pensamento e do Conhecimento — Entre a Totalidade e o Infinito”, e, muito em particular, a Lição Solene proferida pela Professora Maria de Lurdes Rodrigues, sobre “As Transformações Europeias, o Ensino Superior e a Investigação”. Temos muito a aprender da reflexão de uma colega sabiamente empenhada na política académica, na reflexão intelectual e na coragem cívica que sempre revelou. As suas palavras ficarão profundamente ligadas ao nosso trabalho e ao seu futuro.

A terminar, desejo que este novo ano letivo seja vivido com entusiasmo intelectual, espírito crítico e sentido de comunidade. Desejo que cada um dos que aqui ensinam e aprendem encontre, neste espaço universitário, o lugar onde a reflexão se transforma em acção e onde o conhecimento continua a ser força de liberdade e de justiça, contribuindo para o futuro comum. É nesse trabalho que podemos confiar, por duro que seja, para afirmar aquilo que temos de único, aquilo que constitui a nossa singularidade.

Permitam-me, quase a terminar esta minha comunicação, um agradecimento aos responsáveis pela organização desta Sessão Solene, à Senhora Administradora, Professora Maria da Conceição Ferreira Soeiro, ao Dr. Paulo Lopes, à Doutora Eugénia Vicente e a toda a equipa de marketing; ao Doutor João Figueiras, à Senhora Isabel Diogo, ao Eng. Hugo Taborda e respetivas equipas; bem como a todo os elementos responsáveis pelo protocolo.

Agradeço a presença de todos e declaro solenemente aberto o ano letivo de 2025-2026 da Universidade Lusófona.
Disse.

José Bragança de Miranda
Reitor